
O número de evangélicos passa dos 47 milhões de fiéis no país, nas mais diversas denominações, distribuídos em, aproximadamente, 124 mil templos. Foto: Reprodução
Com o passar dos anos, os evangélicos expandiram a música gospel, conquistaram a teledramaturgia e mostraram força política. Mas ainda há muitos desafios
Por Cristiano Stefenoni
Neste domingo (30) é celebrado o Dia Nacional do Evangélico. A Lei 12.328, sancionada em setembro de 2010 pelo presidente Lula, tem como objetivo principal homenagear o grupo de cristãos que passa dos 47 milhões de fiéis no país, nas mais diversas denominações, distribuídos em, aproximadamente, 124 mil templos, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Com o passar dos anos, os evangélicos expandiram a música gospel, conquistaram a teledramaturgia e mostraram força política.
Mas apesar das conquistas, ainda há muitos desafios. O pastor Luciano Estevam Gomes, assessor do Diretor Geral da Rede Batista de Educação da CBM, destaca que, apesar do crescimento numérico, muitos grupos evangélicos ainda enfrentam estereótipos negativos e resistência cultural, sendo por vezes associadas a visões radicais ou intolerantes.
“Fato é que a diversidade teológica e denominacional, embora rica, gera tensões internas, especialmente em temas como política, costumes e ética cristã. O avanço de uma cultura secular e relativista da sociedade contemporânea, desafia a igreja a reafirmar sua identidade, porém precisa se preocupar sobre o perigo de se afastar do diálogo com a sociedade”, ressalta.
Gomes lembra ainda que as igrejas têm atuado fortemente em projetos sociais, como recuperação de dependentes químicos, assistência a famílias carentes, educação e saúde comunitária. “Com isso, a presença evangélica se ampliou em espaços de mídia, arte e política, contribuindo para debates sobre ética pública, cidadania e liberdade religiosa”, enfatiza.
Outra característica importante apontada pelo pastor é o fato da igreja ser um espaço de acolhimento, aconselhamento e fortalecimento de laços familiares, oferecendo suporte emocional e espiritual em tempos de crise.
“A igreja evangélica tem se tornado uma força de transformação social, oferecendo esperança, apoio e sentido de comunidade a milhões de brasileiros. Seu papel vai além de suas celebrações. Ela atua como agente de mudança, promotora de valores morais, solidariedade e fé viva, pois ao equilibrar fé e responsabilidade social, contribui para uma sociedade mais justa, solidária e espiritualizada”, pontua.
Por outro lado, o pastor enfatiza que, embora o relato inicial seja animador, há aspectos, que precisam de melhorias. “A fragmentação denominacional pode ser superada por meio de ações conjuntas em prol do bem comum, priorizando o testemunho cristão sobre as diferenças doutrinárias, principalmente na evangelização da sociedade. É necessário também ampliar a escuta e o diálogo com outras tradições religiosas e com setores não religiosos, reforçando o respeito e a convivência democrática, sem a intenção objetiva de ecumenismo”, justifica.
Estevam também ressalta que a liderança evangélica precisa continuar avançando em práticas éticas, gestão transparente e responsável de recursos e, com toda a sua força, no compromisso com a verdade e a justiça social. “Em meio à expansão institucional, a igreja deve preservar sua essência espiritual, centrada no evangelho, na compaixão e no serviço ao próximo”, diz.
Mistura da igreja com a política requer atenção redobrada
Na opinião do pastor Samuel Silva, mestre em História, escritor e líder do Projeto Refúgio em São Paulo e da Igreja Batista do Povo, o atual cenário revela uma igreja evangélica imersa em um cenário político em ebulição, envolto a polarização que tem levado mais a separação do que a união e o crescimento.
“Um ponto de ressalva e que requer muito cuidado é de como a igreja vem sendo flertada para a arena política por todos os seguimentos. O Dr. Martin Loyd Jones em seu livro ‘Puritanos sua Origem e seus Sucessores’, diz: ‘Nenhum plano político jamais encheu qualquer igreja’. A missão da igreja é proclamar o Evangelho”, alerta.
O pastor ainda cita o Dr. Russel Shedd, em seu livro “Justiça Social e interpretação Bíblica”, onde o autor ressalta que ‘Aqueles que regem, governam as estruturas perversas do mundo devem ser chamados ao arrependimento’. “A nossa missão é anunciar o evangelho da graça para salvação de todos. Pastores e líderes têm a responsabilidade de equipar os crentes para essa tarefa e não terceirizá-la para qualquer instituição política socioideológica”, afirma.
O teólogo Lourenço Stelio Rega, Ph.D. em Ciências da Religião, acredita que a igreja deixou de ser uma igreja missional, cujo papel é ir ao mundo e mostrar as boas novas. Ele afirma que se a igreja voltar a ser comprometida com o Evangelho e com o crescimento espiritualmente de seus membros, isso refletirá na vida pública e social.
“É preciso ser uma comunidade modelo de contraste em relação ao mundo, que era o papel que Israel negou, Judá negou e nós estamos negando. A posição da igreja é reassumir o seu papel em termos não só de proclamar verbalmente as Boas Novas, mas preparar as pessoas devolvendo-as para o mundo para que vivam o evangelho intensamente no exercício de sua vida pública”, finaliza. Por Portal Comunhão