Acordo Mercosul-União Europeia: ‘A gente está desistindo de projeto desenvolvimentista que gere conhecimento e tecnologia’, aponta economista

Depois de mais de 25 anos de negociações, representantes do Mercosul e da União Europeia assinarão neste sábado (17) o acordo comercial entre os dois blocos econômicos. Celebrado pelo governo brasileiro, o acordo cria uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, conectando mais de 700 milhões de pessoas.

No entanto, apesar de aspectos positivos, a celebração entre os países mantém uma lógica de exploração, ligada ao agronegócio, que não traz um projeto desenvolvimentista de fato para o país e a região.

“A questão não só e lucrar, a gente está desistindo de um projeto desenvolvimentista de fato que gere conhecimento, que gere tecnologia “, apontou a economista Ligia Zagato, no BdF Entrevista desta sexta-feira (16), ao analisar o acordo entre os blocos. Na conversa, a economista resgatou ainda o histórico de idas e vindas das negociações de décadas.

“Os problemas dos anos 2000 ainda são problemas até hoje, porque diziam respeito, do lado europeu, a uma preocupação sobre como ficaria o setor agrícola deles diante de uma competição de produtos oriundos daqui do Mercosul; e do outro uma preocupação com a indústria nascente, em partes, do Mercosul”, contou.

De lá para cá, dos dois lados do Atlântico, houve uma série de acontecimentos nos cenários político e econômico que atrasaram e dificultaram a busca por um denominador comum. A economista aponta que a negociação ficou praticamente paralisada entre 2004 e 2016, quando os europeus voltaram a abrir os diálogos.

A chegada de governos de tendência liberal, como os de Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) no Brasil, e Mauricio Macri na Argentina, abriu espaço para negociações que, embora ainda difíceis, avançaram. Em 2019 houve o que a especialista chamou de uma “conclusão técnica” do acordo, com definições sobre tarifas, tempos de implantação e outras questões estruturantes.

“Com a entrada do governo Lula [em 2023], a gente teve então uma nova liderança, que tem relações diplomáticas muito mais azeitadas com a União Europeia e é um dos líderes do Mercosul, e eles começaram, com base no acordo que tinha sido negociado entre 2016 e 2019, a tentar melhorá-lo para chegar num ponto que pudesse ser aceitável para ambos os lados”, relembrou Zagato.

Esse ponto “aceitável” pode trazer alguns ganhos em termos geopolíticos e diplomáticos, na avaliação da economista. Em um contexto em que Donald Trump força a barra em suas políticas isolacionistas, o acordo pode trazer menor dependência dos Estados Unidos. Por outro lado, Ligia Zagato afirma que as trocas serão ‘desiguais’, já que os países do Mercosul vão enviar insumos e receber bens manufaturados vindos da União Europeia.

“As empresas da União Europeia, mas que poderiam ser da China ou dos Estados Unidos, estão se tornando mais tecnológicas, mais sofisticadas, criando cada vez mais bens que são relativamente mais caros do que a banana ou suco de laranja ou café que a gente exporta”, alertou. “Ao exportar commodities e importar bens de alto valor agregado, a gente está exportando a natureza e importando conhecimento”.

A especialista avalia que, no Brasil, é difícil imaginar a implementação de um projeto efetivo de desenvolvimento nacional. O desafio se torna árduo a cada mudança de governo, com ideias diferentes sobre o tema.

“Ainda que, supondo um ‘cenário cor-de-rosa’ em que houvesse interesse de todos os governos em realmente desenvolver o país, o que eu acho bastante discutível, eles teriam noções diferentes de como implementar”, ponderou. “A gente tem uma elite, não só no Brasil, mas nos países do Cone Sul, de maneira geral, muito forte, que é historicamente ligada a interesses agrários. A gente está num país que nunca fez a reforma agrária, como deveria ser feita. E isso tem implicações práticas agora, porque esses grupos continuam tendo poder”, destacou.

Para ouvir e assistir

BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h. Por Brasil de Fato 

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Sobre Sizinio

Natural de Itapetinga, Evangélico, Casado com Cris Sousa, Radialista / Locutor Noticiarista / Repórter Policial há 28 anos. Trabalhou na Rádio Fascinação durante 13 anos como âncora do Programa NA BOCA DO POVO. Teve passagem nas Rádios Cidade FM e Jornal AM, foi Agente Público (Administrativo) da DT de Itapetinga (Delegacia Territorial) até 2016. Líder Comunitário, Presidente do Conselho Comunitário de Segurança Pública, membro e representante da Federação dos Conselhos Comunitários de Segurança Pública do Estado da Bahia no Território Médio Sudoeste, presidiu por três anos a Coordenação Municipal de Defesa Civil de Itapetinga (COMDEC), foi membro do Conselho Penal da Comarca de Itapetinga, presidiu a Associação de Moradores da Nova Itapetinga (AMONI), foi por dois anos, Assessor de Comunicação da SIBI (Segunda Igreja Batista de Itapetinga - período 2017/2019) e é um dos Editores do Itapetinga na Mídia... Contato: Whatsapp (77) 98818-9065 (Whatsapp) / E-mail: reportersizinio@gmail.com

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